Feeds:
Posts
Comentários

Sopa de Inesperados

Quando falei sobre ordinários aqui no blog, achei que esse assunto já tivesse rendido o suficiente. Quando eu menos espero, no aconchego da minha cozinha pacífica, o ordinário resolve te oferecer um ingrediente a mais para inserir na sopa. Dessa vez, o gosto voltou a apimentar, mas não sei se quero provar. A resistência em provar uma receita proibida é a principal vitória que você pode ter em situações assim.

Quando está tudo tranquilo e você decide que um determinado cozinheiro não tocará mais na sua panela, tudo muda quando ele simplesmente entra na sua cozinha sem ser convidado e te dá um oi, na cara de pau. Você estremece e a receita quase desanda, mas finge que está tudo bem e apenas responde com um sorriso falso. Afinal, para quê melhor charme do que fingir que não liga para a sopa queimada?

O problema dos ordinários é que eles chamam atenção justamente por trazer um gosto mais ousado para uma receita. Por um momento, você se questiona se voltaria a se encantar com tal pessoa, mas em seguida lembra que de facas, a sua cozinha já está cheia. De qualquer forma, conhecendo minhas habilidades culinárias, não duvido nada que isso ainda possa render. Afinal, um homem sem casos problemáticos na vida, não é um homem completo.

No radinho da cozinha:
Tell Me – Christina Aguilera

Sopa de Números

Cinco pitadas, dois copos, sete xícaras. Um garfo, uma faca. Uma panela, uma tampa. Dois cozinheiros, três refeições ao dia, uma cozinha. Uma mesa com quatro cadeiras para dois. O relógio na parede marca nove e quinze.

Combinações de oito números superlotam o celular. Amigos, familiares, cozinheiros. Nomes, sobrenomes, apelidos… o celular é como um cemitério de relações frustradas. Todos os pratos que não deram certo ainda estão ali, ocupando uma posição no celular, como se significasse alguma coisa. Nem todos significam.

De alguns números, ainda existem mensagens de texto que você apaga somente quando lota e atrapalha o recebimento de outras receitas. Ao apagar, a lembrança daquilo que um dia foi bom para você, para os dois. Uma simples mensagem “Também, também. ; )” significa mais do que o Hino Nacional, e ela foi enviada em dezessete do cinco de dois mil e nove às seis e trinta e dois da manhã. Mais números.

O desapego do passado é fácil na teoria, mas tudo que um dia foi bom (ou até ruim demais) deixa suas marcas. Ficar marcado por alguém e pelos números deste alguém não quer dizer nosso coração vai disparar toda vez que este alguém aparecer. Pode até disparar, mas não significa que é porque ainda exista sentimento ali. Significa apenas que você está entrando no cemitério de relações frustradas e é sempre tenso andar por lá.

Este texto foi inspirado em um postal do Post Secret.

No Radinho da Cozinha:
Nada Por Mim – Paula Toller

Sopa de Casualidade

Existe toda uma ideia formada na cabeça da sociedade sobre os relacionamentos casuais, inclua nestes não só o beijo, mas principalmente o sexo. Há um conceito de que o indíviduo está se desvalorizando se ele passa uma noite apenas servindo sua sopa para uma pessoa que, provavelmente, ele nunca mais verá na vida.

Existe punição para qualquer ingrediente errado que usamos nas nossas sopas. Não há como dizer o que é certo e errado hoje em dia, principalmente no que diz respeito aos sentimentos. Aos nossos sentimentos. Acredito que o que as pessoas devam procurar é se sentir bem no momento em que só existe vazio, tristeza ou insatisfação.

Os deuses podem nos punir eternamente por cozinhar uma sopa casual. Nós mesmos podemos nos culpar brutalmente por um jantar que culminou na cama  com um sexo terrível ou sujo o suficiente para te deixar com nojo. Mas não sei. Cada um sabe o que faz da vida e deve arcar com suas próprias frustrações culinárias. Ao final do dia, você volta a ser vazio do mesmo jeito, sem sentimentalismos latentes. Neste quiprocó, não se tem muito a ser julgado.

No radinho da cozinha:
Take Me With You - Morphine

Sopa de Desfechos

As coisas estão sempre começando e terminando. Para você saber se uma receita deu certo, é sempre bom ir até o final, porque o que pode parecer muito bom (ou muito ruim), pode se mostrar diferente ao final do preparo. O fato é que, qualquer receita que você faça, ela vai terminar de qualquer jeito: ou por fracasso na realização do prato ou pelo simples fato de que, no final, vai tudo para a barriga e puf!

O desfecho de uma receita pode ser tão frustrante quanto a dificuldade de começá-la. Tudo precisa contribuir para que, ao final, dê certo e seja bem servida. Acho que um dos fatores que mais contribui para isso é o humor do cozinheiro. Não adianta querer fazer uma sopa extraordinária se, naquele momento, você não está com determinação para fazer com que dê certo. Então as coisas passam e a sopa sai “torta”. Tempos depois, quando você percebe que poderia cozinhá-la com o maior êxito, parece que nem todos os ingredientes estão acessíveis.

Tudo um dia acaba. Um sorvete, um cinema, uma balada, um relacionamento. O único diferencial de cada desfecho é como você encara cada um. Já encarei finais das formas mais dramáticas possíveis, daquele jeito que não aceitamos de forma alguma estar terminando algo importante. O último desfecho se encerrou de forma tranquila (vai ter gente discordando), mas acredito que melhor do que aceitar um fim é não ficar insistindo para ficarem com você na cozinha. Ninguém é obrigado a ficar com você. Qual o problema em aceitar um final? Sofra o suficiente e pronto, aceite. Ninguém morre por ninguém.

No radinho da cozinha:
This Is How a Heart Breaks – Rob Thomas

Sopa de Leoninos

Alguns costumam jogar a culpa de tudo no signo, talvez com receio de não achar explicação para atitudes, pensamentos ou escrotices. Sou libriano e costumo dizer que é o melhor signo do zodíaco. Claro. Mas sei muito bem onde meu signo me leva, tanto para as qualidades quanto para os defeitos.

Deixando os librianos de lado, hoje é dia de falar dos leoninos. Um dos meus melhores amigos é leonino. Meu irmão é leonino. São duas pessoas que eu gosto bastante e que já renderam muita conversa, risada e momentos bons durante uma sopa e outra. Afinal, toda regra tem sua exceção. Acho que os dois que eu citei são as exceções dos leoninos.

Já outros dois leoninos  que passaram pela minha vida, eu sempre suspiro antes de falar deles. Nunca sei o que servir para os leoninos. Minha confusão de libriano me transforma em uma pessoa acessível para eles, porém o jeito destrambelhado dos leoninos de achar que tudo só funciona do jeito deles desestrutura até os mais estruturados. Se você traz uma sopa tal, ele agradece, mas reclama que está quente demais. Se leva outra sopa, acha que tem sal demais. E por aí vai.

Leoninos nunca estão satisfeitos. Leoninos podem ter tudo servido à mesa, mas não querem nem metade. Leoninos acham que são os mais espertos e que estão sempre corretíssimos, porém são dotados de um orgulho que é muitas vezes bobo demais e acaba destruindo futuros que poderiam ter sido, mas não foram. Leoninos precisam aprender que, independente de serem leoninos, são pessoas falíveis, que também sentem medo, receio, paixão, etc. , assim como todo mundo de qualquer signo.

Apesar do meu compreendimento fail com leoninos, eu tenho uma incrível sina de me interessar por eles. Não entendo muito de signos e já até cruzei libra com leão e deu uma combinação meio controversa, mas o fato é que leoninos me instigam, da mesma forma que me amedrontam. E no final, a digestão nem sempre é boa.

Hoje em dia, para mim o importante não é nem saber o nome, idade ou ocupação da pessoa que provará das minhas sopas. Eu sempre pergunto: Qual teu signo? Quando respondem Leão, eu sempre resmungo. Nem acredito muito em signo, mas prefiro acreditar que leoninos deixam minhas sopas sempre estranhas.

No radinho da cozinha:
Never Gonna Be Alone – Nickelback

Sopa de Ordinários

Bonitinho, mas ordinário. Esta foi uma das frases que eu aprendi com uma grande amiga. Bonitinho, mas ordinário! O mundo está cheio deles. A beleza de um prato é sempre um bom convite para que você se interesse por ele. Entretanto, nem sempre ele é tão gostoso quanto aparenta ser.

Só sei que hoje percebi o quanto pessoas bonitinhas podem ser ordinárias mesmo. Resumindo a novela mexicana, um cozinheiro deu em cima de você; cinco minutos depois você descobre que ele namora; uma semana depois descobre que ele também deu em cima de um amigo seu.

Olha, para uma comida descer bem, não adianta ser bonita, loira, morena, atraente e quase irresístivel, mas é sempre bom também ter um pouco de dignidade por trás do cozimento. Tem que ter valido a pena você estar ali babando por aquele prato. Quanto mais prático um prato, menos interessante ele se torna. Quanto mais arrojado e difícil, dá mais água na boca.

Mas tudo bem. Acho que cada um de nós tem uma porcentagem ordinária, em maior ou menor proporção, e a minha parte agora reafirma: quando você terminar o namoro, me procura que a gente resolve o que pedir para o jantar, ok?

No radinho da cozinha:
Viva La Vida – Coldplay

Sopa de Estranhamento

É meio bizarra essa sensação de estar com o coração em paz. Depois de tanta complicação na cozinha, panela suja, prato quebrado e copos com digitais, estar com tudo aparentemente em ordem causa um vazio.  Ao fim do dia, nada para lavar, cozinhar ou limpar. Não existem tantas interferências externas de pessoas querendo meter a colher onde não foram chamadas.

Por um momento, você até se questiona se a vida não tem mais graça quando tudo está um caos. We like the chase! Quando estamos vivendo bem e sem ninguém para quebrar nosso coração, é de estranhar que tudo caminhe bem. Logo com você, que está acostumado com a conquista, com os beijos de quem você quer, com as brigas, com todas as DR’s que acabam na cama, enfim; parece agora que a felicidade e a paz são falsas, passageiras, inúteis.

Este ano cozinhei três pratos principais que deram má digestão. Um deles, reconheci recentemente que foi mal cozinhado e que, se fosse possível, eu tentaria melhorar a receita. Outro está completamente fora do jogo, e o último nem sei a quantas anda. Só sei que, mesmo com esse vazio que a paz traz, nada é como você estar em conflito, em maior ou menos proporção, com quem você gosta. Ou acha que gosta. Fico me perguntando quando a cozinha vai estar novamente bagunçada e meu rosto sujo de tempero.

No radinho da cozinha:
Already Gone – Kelly Clarkson

Sopa de Problemas

O problema do ex é quando ainda existe algo no ar. Não é aquele amor que um dia pulsava dentro de você, muito menos a vontade de rolar um flashback. É algo como não conseguir, de alguma forma, abdicar de todo um passado que foi bom e ainda cutuca a gente hoje em dia.

Isso faz com que as pessoas preparem sopas pretensiosas para demonstrar que estão bem. É aquela coisa: “estou bem e tenho que demonstrar” ou “você está aí e eu estou aqui com outro”. Sei que o gostinho de sair por cima é ótimo, mas existem coisas que não precisam.

Em um ambiente onde existe muito espaço para ficar com outra pessoa, o ex vem e fica na sua frente, como forma de provocação e por saber que você está em outra há algum tempo. Ou em outras. Talvez seja uma forma de defesa e de se autoafirmar como o tal… como aquele tal que você achava que ele era, mas que hoje não passa de uma pessoa linda e boba.

As desavenças que a gente passa em um relacionamento não são os problemas maiores. O pior sempre vem depois. O after é que mostra a consequência das coisas e você só se salva quando sabe lidar com ela. E a maioria das pessoas não sabe.

No radinho da cozinha:
Bizarre Love Triangle – New Order

Sopa de Insatisfação

O ser humano nunca está satisfeito. Se o cabelo está grande, logo quer cortar. Muda de cor, repica aqui, frisa ali. Duas semanas depois, enjoa e já pensa em outra coisa para ter motivação.  Se ganhou peso, logo começa uma dieta rigorosa, mas ao mesmo tempo não dispensa uma guloseima “só hoje”.

Dele ou dela, a gente gosta, mas nunca achamos que a sintonia é perfeita. Lógico, nunca é. Ele nunca será o cara perfeito. Ele é só um cara. Ela nunca será a menina meiga que te faz feliz todo fim de noite te desejando bons sonhos. Ela também pode ser estressada, possessiva, bipolar, ter piolhos e caspa.

O que determina o nível de satisfação entre duas pessoas é o quanto nos dedicamos para que as coisas funcionem. É o quanto fazemos pelo outro o que ele merece, do jeito que merece. É o quanto respondemos ao carinho, às brigas, a tudo. Isso é a pimenta de uma relação. A pimenta é construir em cima das diferenças, das insatisfações. Porque no final da vida, você vai se orgulhar do que construiu, e não do que reclamou ou perdeu.

No radinho da cozinha:
Marina Lima – Não Sei Dançar

Sopa de Ambição

Tem gente que gosta de sopa bem salgada. Mesmo sabendo que a comida já vem condimentada, faz questão de sempre pedir aquele sachêzinho de sal extra. Às vezes me admiro com a ambição humana alheia, e quando me pego analisando as minhas ambições, me choco mais ainda.

Tem horas que tudo que você quer é uma sopa rápida. Desde o começo, você está ali em frente ao prato, só esperando ser servido. Vez por outra, bate com a colher dentro do prato para indicar que a comida está demorando. Você se insinua, sorri, lambe os beiços para que despejem logo todo o líquido. A ambição de comer logo algo que todos recomendaram acaba se revelando um fracasso. Simplesmente ela não quer estar no seu prato, sabe-se lá por que.

Em outros momentos, tudo que você precisa em uma sopa é aquele toque de pimenta que eu sempre falo. A pimenta se relaciona diretamente ao que você vive atualmente, então todas as suas relações e suas comidas estão cheias de pimenta naturalmente. Eu costumo sempre pedir um vidrinho a mais de pimenta para ver se não perde o gosto. A pimenta da noite acabou virando as costas e fazendo uma bobagem de uma grandeza incrível. Mas fazer o que? Sabemos os efeitos da pimenta e nem devemos reclamar quando a boca começa a arder.

A realidade é que cada momento, cada companhia e cada prato dependem muito do que você está desejando para si. Nem adianta dizer que você faz uma sopa gostosa para os outros provarem. Não, você faz porque sabe que também vai se servir. O problema é que algumas vezes a gente acaba sendo vítima do destino e nem nos servimos. Ou se nos servimos, nos engasgamos com a primeira colherada.

No radinho da cozinha:
Maroon 5 – Nothing Lasts Forever

Mensagens Antigas »